Criado por Tite Kubo, o mangá Bleach foi recusado na antologia Shounen Jump nos idos da década de 90, pois como a série fazia parte do gênero sobrenatural tinha incontáveis semelhanças com outro sucesso da época: Yu Yu Hakushô. A Jump não quis arriscar e fechou as portas para Kubo, que não teve outra alternativa a não ser aperfeiçoar o enredo, personagens e futuras sagas de sua obra.
Veio então outro mangá enquanto Bleach era moldado. Zombie Powder estreou em 1999, não fez muito sucesso no Japão, sendo cancelado depois de um ano, com apenas 4 volumes compilados. Para o autor, até que foi um bom começo, a série foi bem aceita em outros países, mas o primeiro mangá de Kubo apresentava diversas falhas, dentre elas podemos destacar a falta de originalidade (muito comum no seu atual mangá).

Eis que finalmente Bleach estreia nas páginas da Jump, em meados de 2001. Os números são impressionantes, não dá pra negar: O anime da série tem 247 episódios (continua em produção); o mangá com 41 volumes (Idem); 3 filmes de sucesso em bilheterias; dois especiais exibidos na Jump Festa e uma enorme legião de fanáticos. Até aí tudo bem, contudo Bleach poderia ser muito melhor do que é, ratificando todos esses dados. Baseado nos volumes lançados até agora pela Panini, fiz essa review para mostrar um lado de Bleach que poucos costumam falar! Leia mais abaixo sobre o enredo, personagens, defeitos, acertos e mais.
Bem, o Tite Kubo teve muito tempo para reformular a história e o resultado foi um pouco decepcionante. Tá certo que atualmente é difícil criar algo totalmente original, que um mangá influencia o outro (principalmente no gênero shounen), mas Bleach é basicamente feito de clichês, com pouquíssimos toques originais.
Começando pelos personagens. São sempre os mesmos estereótipos, onde poucos se salvam. Ichigo é o Yusuke do século 21 (quem conhece as duas séries sabe do que estou falando!), mas não possui o mesmo carisma do detetive e isso é inadmissível se tratando do protagonista; Orihime é a típica garotinha boba que fala coisas sem nexo para dar um humor extremamente forçado a trama. Ishida é o cara arrogante, que se acha melhor que todos. Fora estes, ainda tem o preguiçoso Shunsui, o comilão Omaeda, o velho poderoso Yamamoto e tantos outros.
Outro ponto negativo é o desenvolvimento dos personagens. Às vezes rápido demais, outras muito lento. Ichigo é forte, não foi muito explorado o fato dele possuir tamanha energia espiritual, mas existe um certo "protagonismo" pra fazer ele vencer algumas batalhas. Só por causa de um simples treinamento com o Urahara, ele já consigue se igualar a um capitão, sendo que nem mesmo kidous e bakudous (espécies de magias) o adolescente aprendeu a soltar.
E porquê diabos Sado tem aquele braço? E Orihime aquelas fadinhas? O autor menciona bastante os poderes destes dois, mas ainda não explicou como surgiram. Com isso existem duas opções: 1) Tite Kubo é um gênio e está guardando algo impressionante para essas explicações ou 2) Ele está tão enrolado com sua obra que se perdeu no enredo. Fora isso, ainda teve uma grande queda de qualidade na trama, mas isso eu falo mais pra frente.
Poucas coisas. O traço do autor é bonito, sem mencionar que ele foi mudando o design dos personagens aos poucos, talvez para dar impressão de que eles estão ficando mais velhos. Tite também usa muitos cenários de fundo bracos e acho isso bom, pois o quadrinho dá mais destaque a determinado personagem.
As lutas também são bacanas, sendo que na maioria das vezes utilizam força bruta nos combates com espada, mas o grande charme são as técnicas utilizadas. Os famosos Shikai e Bankai são bem variados, com habilidades únicas, resultando em batalhas impressionantes. A saga da Soul Society também merece destaque, mas novamente, vou falar disso depois.
Um detalhe interessante é o tratamento que o mangá vem recebendo aqui no Brasil. Com um bom preço, 200 páginas por volume e uma tradução acima da média. Para os perfeccionistas, o volume 19 contou com quase um capítulo colorido e de vez em quando conta com alguns posters coloridos, algo raríssimo no nosso país. Vale a pena comprar só por causa disso.
Na trama, o mangá só vai divertir mesmo lá para o volume 7. Nada contra os seis primeiros, entretanto os Hollows não são adversários que dão muitos problemas para Ichigo e Rukia. Pelo contrário. Até mesmo o Grand Fisher, um hollow que foge a 50 anos, não demonstrou grande coisa. A apresentação do tema é lenta e isso é bom, não fica algo chato demais nas explicações. Mesmo assim, Bleach é um shounen e tava na hora de mostrar a "espinha" de um título destinado aos homens, ou seja, as famigeradas lutas.
A saga da Soul Society foi o ápice do mangá até o momento. Tite estava inspirado quando elaborou essa nova aventura. Inimigos dignos (Os famosos capitães do Gotei 13), lutas empolgantes, com muita ação e violência, afinal a série simplesmente mudou o rumo. Parecia algo simples, idiota e de repente o enredo torna-se grandioso. Alguns combates são desnecessários, mas era de se esperar, praticamente todo shounen tem isso e no fim o saldo foi positivo. Reviravoltas e mistérios também estão presentes e um final promissor transformaram essa saga em uma das melhores dos mangás.
Veio então a saga Arrancar. De início, o pique da saga SS foi mantido, dessa vez com pouco espaço para a comédia, dando a entender que o mangá vai ficar cada vez mais tenso. Revelações, lutas mais complicadas, novos personagens sendo introduzidos e tal. Um começo espetacular. Um clima meio depressivo vai surgindo, mostrando o lado mais humano dos personagens e finalmente o plano do principal vilão é revelado. Depois disso, Bleach caiu na mesmice. Os mesmos elementos da saga SS são usadas na saga do Hueco Mundo, com algumas poucas diferenças. O enredo foi jogado para debaixo do tapete. Ao menos as lbatalhas continuam num bom nível, mas isso é pouco para o potencial que o mangá demonstrou no volume 20.
Atualmente, a série está muito arrastada, com uma saga repleta de combates decepcionantes e pouca evolução no enredo. Essa, sem dúvida, é a pior parte do mangá inteiro. É difícil a série recuperar o seu fôlego depois de um período como esse, lembrando que até mesmo Naruto, segundo mangá mais vendido do Japão, sofreu com isso durante a mudança para a nova fase e só agora depois de muitos meses, voltou a ser o que era.
Meu maior erro foi acompanhar Bleach esperando grande coisa do mesmo. Todos falavam "É incrível, um dos melhores que já vi". Pois não é bem assim, meus caros leitores. O mangá é bonzinho, diverte, esse é o seu papel. Mas deixa muito a desejar em muitos momentos, retirando todo o prazer da leitura. Na saga da Soul Society, esse sucesso poderia ser justificado, no entanto o autor fez o favor de transformar tudo em algo fraco, sem empolgação.













